Capítulo 5 (Continuação):
por Miguel dos Anjos
Com esforço, o velho homem observador da misteriosa janela busca fotos antigas em meio a coisas aleatórias, em uma gaveta empoeirada no seu quarto. Ele desconfia de que conhece o homem da casa vizinha. Lá estava uma criança com olhar tristonho, muito parecido com o rapaz que agora estava desaparecido de sua rotina, estampado em diversas fotos em festas do bairro, acompanhado da já falecida Maria. Ele a conhecia. Com a foto na mão, ele volta a espiar a janela, que agora segue fechada. Cada vez mais intrigado, resolve procurar pela mulher que noutro dia lhe bateu à porta em busca de uma escova.
Atravessou a rua – vazia em função do feriado – sob chuva fina, e um cão lhe cheirou os pés, seguindo direto para o outro lado da via. Na casa da frente, provavelmente os patrões da mulher não gostariam daquela abordagem. À espreita, esperou a mulher surgir no pátio da casinha de trás por quase meia hora.
De testa franzida, ela veio a contragosto encontrar o velho que parecia aflito em lhe falar. Pressentindo algo urgente, lhe mandou entrar. Recebendo-o em sua humilde casa, ela foi direto ao ponto: – Certo… qual seu interesse na casa da frente? Ele engoliu a água de uma vez só e lhe contou sobre sua preocupação com o desaparecimento do casal vizinho. Sem que ela falasse qualquer coisa, lhe mostrou a foto de um garoto que julgava ser um deles. A mulher, após ajustar os óculos na face, disse que havia conhecido sua mãe, Maria, falecida há dois anos. Agora sentada, ela relatou que já havia ouvido muitas histórias desagradáveis a respeito do menino da foto, um adolescente problemático, que agora morava com a nova esposa no apartamento que havia sido de sua mãe.
– Você sabe onde eles podem estar agora? Perguntou o senhor nervoso. – Você vê muitas coisas por aqui…
– Não fico espiando a vida dos outros, você sabe. Mas fiquei sabendo que sua esposa estava muito doente.
Atônito, ele volta pra casa e, em um papel, monta um quebra-cabeças com todos os dados que colhera até o momento. Estava certo de que havia uma ligação entre o sentimento desconfortável àqueles olhos inquietos do garoto da foto, o homem envolvido em confusões, citado pela faxineira, e o sumiço do casal.
Fez plantão na sala à espera de novidades. De certo modo, sentia-se contente com aquela situação. Então, batidas na porta o despertaram às 7h18min da manhã. Era a polícia e tinha perguntas a lhe fazer.
