Por Marcelo Grisa
@marcelogrisa
Canoas é uma cidade que possui 361 restaurantes, de acordo com dados da Secretaria Municipal da Fazenda. O setor tem uma presença massiva no Centro canoense, dada a concentração de empresas e profissionais liberais que têm seus escritórios e sedes ali. Entretanto, em toda a cidade, a crise econômica vem assolando cada fechamento de mês, trazendo preocupação a administradores e proprietários.
O baque da crise

O restaurante D’Roma, localizado no Edifício Center 15, no Centro, enfrenta seu primeiro cenário de grave dificuldade econômica em 18 anos de existência. Wilson Zarpelon, que é um dos responsáveis pela rede que envolve esse estabelecimento e o Tempero & Cia, localizado no Calçadão, vê o cenário com muita cautela. “Temos uma queda de cerca de 30% já, e cada final de mês a gente vê a corda roendo um pouquinho mais”, afirma.
Segundo Zarpelon, a queda contínua vem desde o pós-Copa do Mundo, em 2014, mas só em 2016 a situação ligou o sinal de alerta para os donos de restaurantes. “Nós sentimos no D’Roma e no Tempero. Mas precisamos apostar e negociar para continuar fortes”, explica. Há reformas em andamento no Tempero & Cia. que, caso surtam o efeito desejado, serão imitadas no D’Roma. O objetivo é se manter competitivo e não precisar diminuir a estrutura, o que acarretaria em mais demissões. O D’Roma hoje emprega 18 funcionários. Antes, eram 22.
As perdas são ainda maiores na Pastel Center, do Via Porcello, também no Centro. “Tá complicado… perdemos cerca de 50% aqui”, admite a proprietária, Elvenir de Lima. A microempresária, que atua há 16 anos em Canoas vendendo pasteis, abriu uma segunda loja no Conjunto Comercial antes da crise chegar. Apesar das dificuldades, ela espera que a segunda loja compense a atual queda no verão. “Antes, eu fazia cerca de 170 pasteis e 70 almoços todos os dias. Hoje, baixou para 70, talvez 80 pasteis, e 45, quem sabe 50 almoços”, divaga.
Elvenir assegura que também explodiu o uso do cartão de crédito para comprar almoço. “Daqui a pouco a pessoa não consegue mais pagar, e perco mais um cliente”, preocupa-se.
Sem números, e tendo passado por bem mais crises, o Restaurante e Pizzaria Dom Camilo está aberto há 41 anos no bairro Niterói. A administradora do negócio familiar, Nilza dos Santos, sente que é necessário ter esperança no retorno do movimento porque a economia já passou por situações piores nesse tempo. “Chegamos até aqui com persistência e dedicação, sem esmorecer. Assim como damos um jeito sempre como família, vamos seguir depois desta crise”, assegura.
A base familiar, para Nilza, é o pilar para essa confiança. “Penso que o seu Camilo, meu pai, ainda está conosco. Com o trabalho árduo dele e a persistência da Dona Leonilde, minha mãe, a gente sempre passou por tudo”, declara.
Medidas adiantam?
A maioria dos comerciantes de alimentação consultados não acreditam que o governo municipal ou os vereadores podem fazer muito frente a esse cenário para melhorar a situação do setor. “É um problema lá de cima [Brasília]. Quando eles se resolverem, quem sabe possa ter um esforço conjunto pela economia”, espera Wilson Zarpelon.
Elvenir de Lima, por sua vez, acredita que a situação política local no momento deve se manter, sem possibilidades de manobras em prol do setor. “Os ambulantes continuam fazendo como querem, sem pagar imposto e tudo o mais, e eles [políticos] devem estagnar tudo para manter o que eles têm”, argumenta. “Esperança a gente tem, mas nessa época eles procuram não se queimar.”
Entretanto, há pelo menos áreas nas quais o poder público municipal pode atuar, como lembra Nilza dos Santos. “Falta segurança para as pessoas saírem mais e virem aos restaurantes. Os clientes têm medo, especialmente longe do Centro. Só isso já ajudaria bastante na retomada do faturamento”, assevera.