
Por Marcelo Grisa
@marcelogrisa
Canoas tem uma certa tradição com a Sétima Arte. Além do envolvimento de eventuais canoenses na produção audiovisual brasileira, as projeções de cinema tiveram e têm papel importante no desenvolvimento cultural da cidade.
Isso ocorre desde as primeiras décadas do século XX, quando a cidade era somente um distrito de Gravataí. Ernesto Wittrock pode ser considerado o seu precursor: ele, até a metade das década de 1910, animava festas com projeções ambulantes de filmes mudos curtos. Em 1916, o projetor de Ernesto é instalado no salão de bailes de Santini Longoni. Além de dar a chance de um público maior conhecer a mídia, as pessoas divertiam-se com as brincadeiras promovidas por Wittrock, que inclusive passava filmes ao contrário apenas para ver a reação das pessoas. Infelizmente, em 1920, um incêndio destroi o sobrado, acabando com as atividades.
Cine Porcello
As sessões no sobrado dos Longoni duraram até 1918, quando então a maior atração cinematográfica de Canoas tornou-se o Cine Porcello, inaugurado pouco tempo antes. As atividades culturais de Vicente Cláudio Porcello, que já tinha a sua farmácia em local próximo, ocorriam onde hoje é localizada a Galeria Via Porcello, próximo à passarela da Estação Canoas da Trensurb. Ali passavam as comédias de Charles Chaplin e Buster Keaton, além dos primeiros dramas mudos. Como os filmes eram mudos, havia acompanhamento musical.

Rivalidade: Porcello x Central
O rival do Cine Porcello, que ficava do outro lado da linha férrea, era o Cine Central, fundado por Arthur Pereira de Vargas. A disputa entre Porcello e Vargas era acirrada: eles não se falaram desde que os cinemas começaram a disputar clientela até pelo menos o fechamento do primeiro, na década de 1930, com o advento do cinema falado.
O grande prédio de madeira tinha 400 lugares, e assim como na concorrência, funcionava nas matinês de domingo, quando os proprietários esperavam que todos os frequentadores costumeiros chegassem, para só então ativar o projetor. Às vezes era necessário mandar funcionários à casa de pessoas que não avisavam que iriam ausentar-se.
O Cine Central também atuou na vida política canoense: era um dos apoiadores e anunciantes de O Canoense, jornal criado em 1937 e que tinha como principal bandeira a conscientização sobre a emancipação de Canoas, que ocorreu em 1939. No ano seguinte, a festa de comemoração de posse do primeiro prefeito da cidade, Edgar Braga da Fontoura, ocorreu em frente ao estabelecimento.
Em 1941, o Cine Central passa a ser propriedade de Leopoldino de Castro Matos. Em 1948, chega inclusive a funcionar o Clube do Cinema de Canoas, que tem suas reuniões no local.

Dos anos 50 ao domínio
Em 1950, é inaugurado o Cine Teatro São Luiz. Idealizado pelas famílias Busato e Capoani, a casa de espetáculos veio com a ideia de abrigar de filmes à todo tipo de apresentação cultural.
As atividades do antigo Cinema Central cessaram apenas em 1954, ano em que as duas famílias também inaugurariam o Cine Rex. A Companhia Busato & Capoani faria Canoas correr atrás de Porto Alegre, que já chegara a ter 40 salas de cinema na primeira metade do século XX. Vieram em seguida o Cine Niterói, o Cine Rio Branco e o Cine Vitória, que duraram até a metade da década de 1970.

Anos 80 até hoje
Nos anos 80, o negócio de cinemas na cidade parecia em declínio. Chegou-se a inovar em 1984 com o Novo Cine São Luiz, na mesma Av. Getúlio Vargas, sem sucesso. A partir de então, o único cinema da cidade passam a ser as três salas do Multicine, instalado no Conjunto Comercial Canoas em 1981 pelo idealizador do local, Johannes Engel.
O Multicine era pioneiro no Brasil tanto em instalação de múltiplas salas de cinema quanto na instalação delas dentro da estrutura de um shopping center. A tendência, que viria a ser adotada em todo o Brasil, vinha da Europa. Em 1997, meses antes da inauguração do Canoas Shopping, os três projetores se apagariam para não mais voltar.
A cidade permaneceria sem salas de cinema até 2001, quando o Cinemark Canoas estreou com outro recorde – o de 11 espaços em simultâneo, tornando-se o maior multicinema da América Latina à época. Devido à baixa rentabilidade, quatro delas foram fechadas em anos seguintes, mas as outras sete permanecem.
A concorrência entre cinemas, pela primeira vez em mais de três décadas, deve voltar a acontecer nos próximos anos. O ParkShopping Canoas, do grupo Barra, está sendo construído em amplo terreno da Av. Dr. Sezefredo Azambuja Vieira, e deverá contar com um multicine. A empresa que se instalará no novo empreendimento será a UCI, que tem salas em 12 cidades brasileiras, incluindo capitais do Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste, além de Curutiba, na Região Sul do Brasil. Ainda não foram informados detalhes sobre a operação da empresa no ParkShopping.
