Zeca26072016

 

“Mostrar às pessoas que elas são muito mais livres do que pensam, que elas tomam por verdadeiro, por evidentes, certos temas fabricados em um momento particular da história, e que essa pretensa evidência pode ser criticada e destruída.”
(Michel Foucault)

Focault foi talvez o filósofo que tratou da ferida do campo da existência, aquela ulcera social produzida por nós mesmos, e da qual somos incapazes de livrar-nos. Suas reflexões ainda permanecem e são fundamentais para os movimentos de contestação política e social. Quando José Padilha lançou o seu “Tropa de Elite”, tive a sensação ao assistir que a polícia neste país ainda atua nos moldes de repressão do século XVII, como relata Focault no inicio de seu “Vigiar e Punir”, com a tortura e o esquartejamento de um condenado. Os métodos adotados pelo capitão Nascimento, sob forte pressão e estresse por resultados, fariam surgir o primeiro super-herói nacional. A ficção superava a realidade.

“Matrix é um mundo que jogaram diante dos seus olhos, para deixá-lo cego quanto à verdade… que você é um escravo”, diz Morpheus para Neo. Morpheus, na mitologia, é o Deus dos sonhos, portanto a sua missão e acordar Neo para a realidade. Os irmãos Wachowski, para produzir “Matrix”, inspiraram-se no budismo, espiritualismo, ocultismo, filosofia, em 1984 de George Orwell, messianismo, mitologia grega e celta, entre mais. Acordar do sonho para realidade nos fará reverter o quadro de adversidades.

O Brasil vive numa linha tênue entre as tropas da elite real e a Matrix engajada que nos vende um mundo irreal, “não pense em crise, trabalhe”, a tropa faz seu trabalho, prendendo, torturando e matando a ferida social que criamos enquanto olhamos alucinados para o código de caracteres da Matrix, que passa em nossos plasmas o dia todo. O senso comum não sabe se grita pelo capitão herói ou por Morpheus, que nos ofereça a pílula que nos acorde do sonho para a realidade, que nos livre do pesadelo. Ou pelo menos, no mínimo, entender a frase de Foucault.

Assim como Neo, o capitão Nascimento acordou para a realidade e sentiu-se o próprio alvo. Tudo era mais que uma missão e um jogo de cartas marcadas. Os arquitetos da nação assinam nossa condena diariamente e, com isso, a sua própria sentença de morte política. O mais impactante é ver como existem, ainda, milhares de agentes sonâmbulos engajados na sua militância para salvá-los, sem nexo nenhum com a realidade. Assim como Morpheus diz a Neo “você precisa entender, a maioria destas pessoas não está preparada para despertar. E muitas delas estão tão inertes, tão desesperadamente dependentes do sistema, que irão lutar para protegê-lo”, o capitão Nascimento repete: ”O sistema e foda”,”o sistema entrega a mão para salvar o braço”.

Abraços fraternos.

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