por Marianna Rodrigues*
1 ano depois das enchentes, como estamos?
Já faz um ano de maio de 2024. Faz um ano daquela madrugada fatídica em que muitos se despertaram com o avanço violento da água sobre suas casas. Alguns conseguiram sair em tempo de levar algumas coisinhas, mas outros tantos precisaram sair apenas com a roupa do corpo. Outros, sequer conseguiram sair, precisaram de resgate. Tudo ficou para trás.
De uma maneira ou de outra, as enchentes de 2024 afetaram um conjunto incontável de pessoas. Ainda hoje, discutimos os limites dos planos de ação existentes ou, na verdade, a absoluta ausência de planos de emergência. Por se tratar de fenômenos da natureza, teve quem tentou minimizar a responsabilidade de agentes públicos e privados, como se não houvesse muitas consequências diretamente associadas a ações humanas envolvidas. As controvérsias sobre tudo o que aconteceu continuam vivas.
Em decorrência de todo aquele estado coletivo de sofrimento, nesse período tivemos a prestação voluntária de serviços de Psicologia para a população. Desde primeiros socorros psicológicos, passando por acompanhamento das famílias em abrigos e, até mesmo, escutas individuais, foram muitas as frentes em que se dividiu o trabalho psicológico.
Mas e agora? Como as pessoas diretamente atingidas estão? Quais foram os passos para a reconstrução dos lares, dos bairros, das cidades que já foram dados e quais ainda precisam de algum esforço para avançarem?
Sabemos bem que grande parte dos auxílios foram de ordem “emergencial”, mas é fundamental entendermos que não importa que tenha passado um ano do que aconteceu, é perfeitamente compreensível que continuemos expressando sinais de sofrimento. É perfeitamente compreensível que choremos, nos indignemos, fiquemos ansiosos e tenhamos ainda dificuldades de seguir em frente.
Muitas vezes, pensamos que o melhor remédio é esquecer. Deixar para lá. “Engolir a seco”. Esses mecanismos de defesa parecem muito efetivos em um primeiro momento, mas geralmente deixam consequências profundas em nosso funcionamento psíquico.
Se você está nessa situação, é um bom momento para conversar com outras pessoas – sobretudo, aquelas com quem você detém algum vínculo de confiança. Contar como você está se sentindo, celebrar os passos que foram dados, encontrar forças para continuar caminhando. O serviço psicológico, a psicoterapia, também pode ser uma opção.
Por mais que grande parte da ajuda tenha sido emergencial, nosso corpo provavelmente continua elaborando tudo o que aconteceu. Por isso, seria importante a mobilização da rede de atenção psicossocial e da rede de solidariedade que se desenvolveu, sejam as profissionais, sejam as comunitárias – entre amigos, vizinhos, colegas. Por mais individual que pareça um estado de sofrimento psíquico, estamos diante de um fenômeno coletivo que, por sê-lo, necessita também das coletividades para ser superado.