Há seis meses em operação, o Partiu Futuro Reconstrução, uma iniciativa do Governo do Rio Grande do Sul em parceria com a Demà Aprendiz, já apresenta resultados marcantes. Criado no final de 2024 como resposta às enchentes que atingiram o estado, o programa contabiliza 1,5 mil atendimentos psicossociais e mais de 300 consultas por telemedicina em diversas especialidades médicas.
Voltado a jovens de 14 a 22 anos em situação de vulnerabilidade social, matriculados ou egressos da rede pública de ensino e inscritos no Cadastro Único (CadÚnico), o projeto oferece formação profissional e inserção no mercado de trabalho.
A Demà Aprendiz — tecnologia social da Renapsi — conduz a capacitação de 750 estudantes em Porto Alegre e Canoas. Além das aulas teóricas, desenvolvem atividades práticas atuando como aprendizes, com carteira assinada, em órgãos públicos municipais e estaduais.
Os participantes recebem uma bolsa-auxílio de R$ 828,26 para uma jornada de 20 horas semanais, vale-alimentação de R$ 550, e têm todos os benefícios garantidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Também contam com acompanhamento psicológico, orientação jurídica, reforço escolar, serviço de telemedicina e seguro.
Atendimentos e impacto social
Desde o início do programa, foram realizados:
– 1.573 atendimentos psicossociais;
– 348 consultas via telemedicina, abrangendo especialidades como Clínica Geral, Endocrinologia, Ginecologia, Dermatologia, Ortopedia e Gastroenterologia;
– 100 atendimentos jurídicos, envolvendo temas como pensão, benefícios e direitos sociais.
A diretora executiva da Demà Aprendiz, Aline Ferreira, enfatiza o propósito do programa, que surgiu como uma resposta concreta ao desafio de recomeçar para esses jovens, por meio da educação e trabalho como pilares centrais. “Oferecemos suporte por meio do trabalho digno, formação profissional e acompanhamento psicossocial. Isso exige esforço e resiliência, mas proporciona oportunidades reais de transformação para nossos jovens”, destaca.
O secretário estadual de Desenvolvimento Social (Sedes), Beto Fantinel, também reforça a importância do projeto.
“Seis meses depois do início, já é possível perceber o impacto transformador da iniciativa. Tenho plena convicção de que, ao final dessa jornada, esses jovens sairão mais preparados para ingressar no mercado de trabalho. Sabemos que uma das maiores barreiras enfrentadas pela juventude em situação de vulnerabilidade é justamente a falta da primeira oportunidade. Agora, eles têm a chance real de se desenvolver, adquirir experiência e se qualificar para enfrentar os desafios da vida profissional com mais segurança e autonomia.”
Histórias que inspiram
Ingrid da Fontoura Cunha, de 17 anos, é uma das jovens contempladas pelo programa Partiu Futuro Reconstrução. Aluna do segundo ano do ensino médio na Escola Estadual Visconde do Rio Branco, ela vive com os pais e a irmã no bairro Rio Branco, em Canoas.
Ela conta que morava anteriormente na avenida Guilherme Schell, onde a residência foi destruída pelas águas do Guaíba em maio do ano passado. A família precisou sair às pressas do local e se abrigou na casa do irmão da adolescente, no mesmo bairro, que também acabou sendo atingida pela enchente, e então foi para a moradia da irmã, no bairro Nossa Senhora das Graças. Dois meses depois, com o auxílio que receberam do governo, alugaram uma casa, onde seguem morando.
No fim de 2024, Ingrid se inscreveu no programa e foi selecionada. Atualmente, trabalha como jovem aprendiz na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Canoas, no setor de Diretoria de Economia Criativa e Fomento. Segundo a adolescente, o projeto trouxe oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional, além de contribuir com a renda familiar. O vale-alimentação é destinado às compras do mês, enquanto a bolsa-auxílio permite ajudar a mãe com as despesas.
“O Partiu Futuro me ajudou não só financeiramente, mas também emocionalmente. Eu precisava de acolhimento e de uma oportunidade de trabalho. Nunca me senti tão bem acolhida por gestores, colegas e professores. Hoje estou mais feliz, porque ajudo minha família e consigo me bancar também. O programa pode transformar a vida dos jovens, assim como mudou a minha vida para melhor”, salienta.
Alessandro Camargo Pujol Júnior, de 16 anos, também teve a residência da família, no bairro São João, em Porto Alegre, afetada pela enchente. Eles passaram 45 dias abrigados na casa dos avós, no Morro Santana, e, nesse período, a sua moradia foi saqueada.
Ele recorda esse momento com pesar. “Minha casa ainda carrega as marcas da enchente. Lembro o desespero ao ver a água entrando e me perguntar se algum dia conseguiríamos voltar. Tive medo de perder para sempre o lugar onde criei tantas memórias”.
Graças ao Partiu Futuro Reconstrução, Alessandro conseguiu contribuir na reposição de móveis e eletrodomésticos. Ele cursa o segundo ano do ensino médio no Instituto Estadual Dom Diogo de Souza e atua como aprendiz na Procempa, no setor Administrativo e de Fiscalização Digital.
Com a bolsa-auxílio, cobre suas despesas e, com o vale-alimentação, faz as compras do mês para os pais. “É gratificante conquistar meu próprio dinheiro. Realizei o sonho de adquirir um PlayStation 5 e ainda presenteei minha mãe com livros, porque ela adora ler”.
Para Alessandro, o programa é uma porta aberta para novos caminhos. “O Partiu Futuro transforma vidas por meio do trabalho e das relações humanas. Sou grato todos os dias por essa oportunidade. A equipe da Demà Aprendiz é como uma família — sempre prontos a acolher com um sorriso e ensinar como cuidar da gente e do nosso trabalho.”
Os irmãos gêmeos Gabriel e Samuel Abadi Farias, de 15 anos, também fazem parte do projeto desde o lançamento, no final do ano passado. Estudantes do oitavo ano na Escola Estadual Danilo Antônio Zaffari, vivem com os pais no bairro Humaitá. Gabriel atua como jovem aprendiz no Samu de Porto Alegre, enquanto Samuel na Defesa Civil da Capital.
A mãe dos jovens, Rosane Abadi, de 40 anos, higienizadora na Auto Viação Navegantes, reconhece o impacto positivo do programa na trajetória dos filhos.
“Desde que entraram no projeto, eles amadureceram. Aprenderam o valor do dinheiro, a importância do compromisso e o respeito às regras. Tem sido uma experiência muito enriquecedora para os dois. Eles compram o que precisam com a bolsa-auxílio, e o vale-alimentação fica comigo para o rancho do mês”, celebra.