Lembro bem daquelas conversas entre pai e filho, após algumas latinhas vazias já se enfileirarem no costado da parede da área. Sábio da vida, por nunca ter concluído o ensino fundamental, ele dizia para meu desprezo: “A única coisa que tu tem na vida é o teu nome”. Falou o homem que não tem um Porsche, pensava eu. Afinal todo o jovem é dotado, por natureza, de toda a razão. Só que não.
Talvez esse pensamento seja o que me faz não defender o projeto petista de hoje. Nossos governantes não tem palavra. Até tem, mas não a honram dias depois de dizê-las. Não podemos confiar, como eu confiava no passado, nas palavras por eles empregadas.
“O rapaz estava apenas colocando aquilo que ele leu. E se ele leu, porque alguém escreveu, o culpado não é quem divulgou, o culpado é quem escreveu. Portanto, ao invés de culpar quem divulgou, culpe quem escreveu uma bobagem. Se não, não teria o escândalo que tem”. A frase é do ex-presidente Lula, em 2010, quando saiu em defesa ao Wikileaks e ao direito de expressão.
Por qual motivo agora o problema é a divulgação dos áudios e não as bobagens que lá foram ditas? Como o próprio disse, ao invés de culpar quem divulgou, culpe quem escreveu. Se Lula não tivesse a postura que tem, não estaria neste rolo e nada seria encontrado nas gravações. É exatamente para isso que o grampo serve. E este foi sim autorizado pela justiça. Nada de ilegalidade nisso. Divulgá-los, talvez sim. Mas o erro de um juiz de primeira instância precisa, para o bem do bom senso, ser menor que os erros da Presidência da República.
O mesmo ocorreu com a defensora dos direitos humanos, deputada Maria do Rosário. As tentativas da petista de defender Lula da expressão “as mulheres de grelo duro” foram patéticas. “Uma expressão do nordeste”, disse ela. E ficou feio. “Sobre as observações do presidente”, começou a entrevista à Rádio Gaúcha. Não, Maria do Rosário, não são observações. É machismo, idêntico ao praticado por Bolsonaro, o qual tanto critica. A diferença? A sigla. Os cargos. O tempo de televisão. A amizade que permite julgar as entrelinhas que não são vistas no opositor.
“Há uma diferença quando se diz uma expressão dessas em público, no sentido de agredir alguém, e no contexto entre dois amigos. Ele falava com uma pessoa da sua intimidade”, tentou e acabou incentivando, apenas, que o machismo velado não é um problema, apenas quando feito para agredir. Ou, pior, que o machismo pode com os amigos.
E assim continuam as tentativas petistas. Dilma diz que nomeou Lula para tentar barrar o impeachment. Mentira. Trouxe, isso sim, o problema para dentro do Planalto que, até então, nada tinha com os rolos de Delcídio do Amaral. Este, diga-se de passagem, não era qualquer um. Era líder do governo no Senado, pessoa de confiança. Dilma agiu para tirá-lo da mão de Sérgio Moro e o tiro saiu pela culatra assim como quando tentou justificar o “termo de posse” que deveria ser utilizado em “caso de necessidade”. O PT joga para a torcida, mas já foi amarelado e a expulsão parece não tardar. Infelizmente parece que já trocou os três jogadores e não pode mais substituir. Rousseff, mesmo lesionada, terá de segurar os próximos dois anos.
Em Canoas, a exemplo do país, a oposição é nula, inexistente. O que produz não é um grito, mas um ruído facilmente ignorado pelo Paço Municipal. Mas o cenário parece estar mudando. Aqueles que faziam parte da superbase de Jairo Jorge estão vendo nas alterações nacionais uma alternativa para apunhalar o chefe do Executivo pelas costas. Canoas está se movimentando como nunca antes. Na política, a oposição ao governo parece ter saído do armário.
A candidatura de Beth segue ameaçada, sobretudo por representar uma figura muito parecida com Dilma, quando foi eleita à sombra de Lula. O discurso será o mesmo. Ela tem uma história (Dilma também disse). História essa que foi abandonada, após 44 anos de PP, por um projeto particular de poder. O PRB talvez seja o próximo a zarpar do governo por intervenção estadual. Se isso ocorrer, o partido de pouca, ou nenhuma, representação na cidade passa a ser o eixo essencial.
Para o meu pai, político é tudo um bando de ladrão. Ainda tenho esperança. Espero não estar novamente errado. Espero que o resultado saia nas urnas e não no grito. Que justiça seja feita e que essa turbulência que passa o país deixe a lembrança de que, como bem disse Jairo Jorge ao jornal O Timoneiro nesta semana, “ninguém está acima da lei”.
