O COMEÇO!
Por Carlos Marum – Ex-Ministro de Estado
A morte de Yahya Sinwar animou os defensores da tese de que foi ele quem, comandando o Hamas no 07/10/2023, começou este atual conflito. Tese errada e mal intencionada, que quer jogar sobre os palestinos a culpa pelo assassinato dos seus. “Começaram, agora se virem…” dizem os defensores dos assassinatos de crianças e civis praticados por ordem de Nethaniahu, como forma de se vingar da barbárie praticada. Estão completamente errados. A causa desta guerra é outra e o começo se deu há muitos anos.
Não sou dos que veem na Bíblia ou nos primórdios da humanidade as razões disto. Não, árabes e judeus não existem para serem eternamente inimigos. Nem os árabes e sionistas, desde que estes aceitem a necessidade de viverem dentro de suas fronteiras, deixando no passado a justa fama de Estado Grileiro que Israel possui.
A origem deste atual conflito não vem nem de 1948. A história anda. É verdade que as nações vitoriosas na 2a Guerra Mundial jogaram sobre os palestinos a punição pelos crimes cometidos pelo Nazismo contra os Judeus. Ali tentaram diminuir os pesos em suas consciências e aquela guerra Israel já venceu.
Sim, Israel já foi vitorioso na Guerra pela sua existência. Após a Guerra do Yom Kippur em 1973, o Egito, que era o militarmente mais forte entre os Estados Árabes, assinou uma paz em separado com Israel e a existência do país passou a não mais correr risco. Outros Países Árabes seguiram este caminho, especialmente a Jordânia. Os Palestinos restaram esquecidos, mas aquela Guerra acabou!
Entretanto, ali começou outra Luta. A Luta dos Palestinos pela instalação da sua Pátria. Sozinhos, os Palestinos foram em frente. E começaram com Intifadas, onde meninos enfurecidos enfrentavam à pedradas uma das mais poderosas máquinas de Guerra do planeta, ou seja, as Forças Armadas de Israel.
Assustado com a barbárie, o mundo começou a pedir Paz. E foi então que Clinton chamou Rabin e Arafat, os reuniu em Oslo e os pressionou até que chegassem a um acordo materializado por um aperto de mãos trocado por comandantes que conheciam a guerra e por isto tinham coragem de buscar a Paz. Era o ano de 1993.
Como consequência deste Acordo, Arafat e o Movimento Fatah abandonaram a luta armada, reconheceram a existência de Israel e obtiveram um cronograma de 05 anos para a instalação do Estado da Palestina nas fronteiras anteriores a Guerra de 1967. Ou seja, pela Paz os líderes Palestinos aceitaram instalar o seu Estado em 13% da área original da Palestina, ficando 87% do território para o Estado de Israel.
Havia o temor de uma rejeição popular a proposta. Mesmo assim, Arafat voltou para a Região e foi eleito Presidente da Autoridade Nacional Palestina com mais de 90% dos votos dos habitantes de Gaza e da Cisjordânia. Ali este povo provou que, como seus líderes, queria a Paz.
Já em Israel as coisas aconteceram de forma inversa. Rabin voltou e encontrou cerrada oposição aos acordos. Convocou uma manifestação peja Paz, e foi ali assassinado com dois tiros pelas costas por Yigar Amil, israelense correligionário de Nethaniahu. Era o dia 04 de Novembro de 1995, há 39 anos.
O pior veio depois. Nas eleições que se seguiram, Nethaniahu, um jovem, ambicioso e inexpressivo político, derrotou um dos pais do Estado de Israel, Shimon Peres. E assumiu o poder com um único objetivo declarado: acabar com o processo de Paz. Ali o eleitorado israelense, infelizmente, provou que, naquele momento, em sua maioria, preferia a guerra.
Nethaniahu enfraqueceu, ludibriou e desmoralizou os movimentos palestinos que acreditaram no estabelecido nos Acordos já citados. Daí se fortaleceram o Hamas e, no Líbano, o Hezbolah. É certo que o Irã ajuda-os muito, mas sua força maior vem da causa: Palestinos e Libaneses não mais aceitam viver sob a arrogância da ocupação militar sionista. Nem na Palestina, nem no Líbano e nem em lugar nenhum. É isto que move hoje estes homens que mal armados e até famintos se dispõe a continuar lutando.
E esta luta não começou no 07/10/2023. Começou há 39 anos, no dia 04 de novembro de 1995, no momento do assassinato de Rabin. Ali se iniciou esta Guerra, da qual o que está acontecendo hoje em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano, em Israel, no Iêmen, na Síria e no Irã é mais um triste capitulo. Certamente o mais trágico de todos.