Marcelo Grisa
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“Enquanto há vida e saúde, há esperança.” Indianara Santos da Silva era moradora do bairro Mato Grande até o dia 3 de maio. Desde 5 de julho, ela é uma das primeiras moradoras do Centro Humanitário de Acolhimento (CHA), que fica nas imediações da Refinaria Alberto Pasqualini, a Refap, próximo da divisa entre Canoas e Esteio. Ao local foi dado o nome de Recomeço.
Ela relata que tudo começou de forma comum, na quinta-feira, 2 de maio. “Acumulou água na rua, mas nada que a gente não estivesse acostumado. A água até baixou, e a princípio tudo bem”, explica.
Entretanto, na sexta-feira, 3 de maio, Indianara e seu marido acordaram já com a água no pátio. Na tarde desse mesmo dia, eles e seus cinco filhos precisaram ser resgatados.
Foram levados ao bairro Niterói, de onde precisaram ser retirados à noite, quando ocorreram avisos de evacuação do bairro por conta da ação das águas.
Indianara e sua família não conseguiram recuperar nada da casa que alugavam. “Mas do que adianta ter recuperado tudo se eu tivesse perdido um filho? O que importa é que estamos todos juntos aqui. O resto a gente recupera”, aponta Indianara.
O lugar
Os CHAs são geridos pela Organização Internacional para as Migrações (OIM), órgão que integra o sistema da Organização das Nações Unidas (ONU). Em Canoas, dezenas de membros da organização trabalham com as 320 pessoas nas casas provisórias montadas pelas Forças Armadas. O local tem capacidade para até 630 habitantes.
As moradias têm 17,5 metros quadrados, e são feitas de aço leve, suportando ventos de até 100 quilômetros por hora. A estrutura contém porta com fechadura, quatro janelas e quatro saídas de ventilação. Há revestimento no piso, iluminação LED e painel de energia solar.
Entretanto, como o material é inflamável, não é possível ter tomadas. No pavilhão anexo, além de espaços comuns como refeitório, lavanderia e centro de distribuição de mantimentos, há uma série de locais para a recarga de celulares e outros equipamentos eletrônicos.
Anneli Nobre, coordenadora de projetos da OIM, é quem faz a gestão do espaço. Segundo ela, o acolhimento dos desabrigados pelas cheias é somente a primeira parte do trabalho da organização. “Temos feito articulação com os governos municipal e estadual para dar seguimento às demandas de saúde, educação e assistência social. Já temos esses serviços por aqui também”, relata.
Por fim, a agência da ONU deverá atuar para conseguir escola para todas as crianças abrigadas no Recomeço e fazer ações de empregabilidade para as famílias que estejam morando por lá. Muitos dos desabrigados também perderam seus empregos, ou os danos às empresas resultaram em demissões.

Diferente do abrigo
É o caso de Lisiane Fagundes, que morava na vila Santo Operário, no bairro Harmonia. Ela atuava como babá. Seu marido trabalhava junto à Ceasa, que também foi invadida pelas enchentes. “Agora é esperar se a gente vai conseguir casa definitiva. Temos que ir atrás de tudo de novo: móveis, eletrodoméstico, emprego, tudo. Vamos ter que conquistar tudo de novo”, lamenta.
Segundo ela, foi bem difícil ver o resultado das águas. “É tudo bem material, mas perdemos tudo. Nem tem como morar mais onde a gente alugava”, lembra.
Lisiane estava no abrigo da Ulbra, que chegou a receber mais de 8 mil pessoas. Para ela, que também chegou em 5 de julho, o novo espaço é bom, mas é necessário se adaptar. “Para quem só ficava dentro de casa, cuidando das crianças, é muito barulho, é meio complicado”, ri.
Ela acredita que o espaço na Ulbra era muito bom, e considera que sempre foi muito bem tratada, mas o Recomeço é um avanço. “Tem um atendimento bom, cobertor quentinho, um espaço para a gente mesmo”, afirma.
Indianara, grávida de oito meses, ficou muito feliz com a mudança para o CHA. “Eu já estou em gravidez de risco. Poder ter essa casa provisória, em que eu posso ficar no meu canto, sem todo mundo em volta como no abrigo, é muito positivo”, argumenta.