Levanta cedo, passa o café. Toma o banho, o cabelo vai molhado mesmo. Respinga o perfume de cheiro barato. Sai cedo. O cabelo seca ao vento valente. Aquele sol tolo, nascendo, esquentando as ruas no inverno. O corpo forçando contra a ventania. Passo a passo, o rumo é o emprego que paga em bananas.
Àquela altura, a busca não é por felicidade. São pelas bananas. Da comida. Do aluguel. Ninguém lhe perdoará por sua falta. No mais, nem um fósforo levará de graça. A luta não é mais pelos sonhos de infância. A resistência do corpo e da mente são para a lida diária. Não que se goste dela. É apenas uma troca… ‘lhe dou meu corpo e meu tempo, você me dá o papel aquele que abre as portas do mundo’.
Viu-se na televisão, outro dia, sobre pessoas bonitas, e ricas. Essas pessoas são de sucesso. Sucesso? Afinal, o que seria isso? É carnaval bem aproveitado, devaneia-se sorridente.
Não é. Sucesso é a beleza, vaidosa e sedutora, milionária. O carrão importado na garagem. O terno caro. As mansões com piscina. Sucesso é ser a estrela que aparece na sua televisão, enquanto você devora sua comida feita por alguém de sucesso.
Ninguém sabe, mas está acorrentado. Não se vê a corrente. Mas ela vai junto ao trabalho, ao supermercado. Correntes grossas, dolorosas e extremamente fortes, cuja chave é o seu capital. Não é a fé, não.
É o dinheiro que vai dizer à sociedade quem você é. É ele quem separa o joio do trigo. ‘Me diga seu preço, e lhe digo seu valor’.
Vão olhar seus sapatos idiotas pra saberem com quem estão falando. Vão te jogar na sarjeta se você não tiver ambição. Vão lhe dizer que isso é porque você não tem dom algum, e que ninguém pagará por você nesse mundo caro em que vivemos. Você vira um moribundo e todos sentirão nojo de você. Porque és um perdedor.
‘Seja a droga de um lixeiro então, por favor’. ‘Esqueça essa história de carnaval. Isso é poesia popular’. ‘Festa de verdade é coisa de quem tem grana. Quem não pode pagar o champanhe, que estacione os carros’.
Encerro, lembrando-me das tardes de uma parte da minha infância. Onde éramos os ‘chefs’ menos exigentes do mundo, e fazíamos, eu e meus irmãos, os doces mais absurdos.
Gozamos, ao menos naquela época, inocentemente, de todo o açúcar do mundo.
