emerson29022016

Até o último domingo eu me mantive alheio à discussão levantada pelas alunas do Colégio Anchieta. Cheguei a comentar em um grupo de amigos que não me parecia muito inteligente que elas estivessem protestando por um short 3cm menor, quando o problema do machismo nas escolas vai muito além disso. Só que bastou parar pra refletir, que percebi o quanto eu estava equivocado o na minha interpretação.

As gurias do Anchieta não estão reclamando da proibição do shortinho. Para elas, que não têm acesso a discussões sobre temas relacionados a gêneros em sala de aula, é descabido que a escola queira mandar na roupa delas, em vez de educar os guris para que eles não as desrespeitem.

A luta pelo shortinho parece ridícula, de tão ínfima, mas ela é a porta para um tema muito maior, que não toca apenas o Anchieta. É realmente mais fácil tolir os direitos da mulher se vestir como quiser do que educar os homens a não encararem suas colegas de aula como meros objetos de desejo.

O argumento mais usado por quem ataca a iniciativa das gurias é o de que “pra tudo tem hora e lugar”. Mas por que a escola precisa ser lugar de sofrer com o calor? Daí falam “ah, ,mas lá tem ar-condicionado”. Sério, no recreio e na Educação Física tem ar-condicionado? A céu aberto? Então o Anchieta possui uma tecnologia de refrigeração que eu desconheço, talvez de origem alienígena ou futurista.

Consideremos então que sim, o Anchieta, inclusive seu pátio, possui ar-condicionado. Pensemos ainda que ele fica ligado o tempo inteiro, mantendo gelada esta bolha imaginária que engole todo o complexo da escola. É sério que é melhor gastar energia elétrica para manter esta maravilha tecnológica funcionando do que gastar algumas horas do currículo escolar para explicar para os guris que o ser humano é um tipo de mamífero capaz de controlar seus instintos e de viver em sociedade praticando o respeito mútuo?

E mesmo que o Anchieta fosse mesmo dotado do super-refrigerador de área externa, como ficam as outras escolas? Em muita escola pública ou particular as gurias podem usar shortinho, mas não usam porque se sentem intimidadas pelos olhares masculinos.  Nas públicas, muitas vezes tem só ventilador e quando ele funciona é quase um milagre. Para as alunas destas outras escolas, o exemplo das gurias é fundamental. Se quem estuda na bolha refrigerada imaginária agora quer usar short e, além disso, até quer respeito, por que elas também não podem querer?

No fim das contas eu concordo com quem diz que o argumento das gurias está mal embasado, que poderia focar mais na questão do respeito, no geral, e menos no short. Só que eu me pergunto: como elas vão argumentar melhor sobre machismo na escola, se a própria escola não discute o machismo? A resposta eu não tenho, e acredito que  ninguém tenha.

 

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