O acúmulo de água na maior parte dos municípios gaúchos por conta das enchentes acende o alerta para surtos de doenças infecciosas. O ato de entrar em água contaminada, ação necessária por parte de muitas pessoas ao salvarem seus pertences, atuarem em resgates e até para os posteriores reparos e limpeza das ruas e estruturas pode trazer consequências para a saúde.
Essa pode ser o principal reflexo das inundações do mês de maio no RS para os sistemas de saúde públicos. De acordo com o tempo de incubação de diferentes vírus, bactérias e outros patógenos, essas enfermidades podem vir em diferentes ondas.
“Como podemos imaginar, essa água está nitidamente contaminada. Ela é escura e deve estar cheia de matéria orgânica, com excretas de humanos e outros animais”, disse o médico Alessandro Pasqualotto, presidente da Sociedade Gaúcha de Infectologia, ao portal BBC Brasil.
Nos primeiros dias após o evento climático, as doenças que mais aparecem são infecções de pele, pneumonites ou pneumonias, infecções respiratórias virais e gastroenterites (diarreia).
As infecções respiratórias costumam ser consequência da aglomerações de milhares de pessoas em abrigos, muito próximas umas das outras. Essa condição facilita a transmissão de vírus causadores de resfriados, gripe e covid-19. Por isso a preocupação de autoridades de saúde estaduais na vacinação contra a gripe em abrigos, por exemplo.
Moradias improvisadas também reúnem as condições para a dispersão de parasitas como os que provocam a escabiose (sarna) e a pediculose (piolhos).
O Ministério da Saúde elaborou uma cartilha que detalha os cuidados com água e alimentos após enchentes e outros desastres dessa natureza.
Leptospirose, tétano e hepatite
Em Canoas, uma das doenças que podem ser provocadas pelas condições da enchente que mais preocupam a Secretaria Municipal da Saúde é a leptospirose. A enfermidade pode ocorrer por contato direto ou indireto com a urina de animais na pele. Isso é facilitado em caso de arranhões ou ferimentos, que podem já ter sido causado pelas condições adversas em salvamentos e na saída dos moradores de suas casas.
Nesta terça-feira, 28, a prefeitura publicou um alerta sobre o assunto em seu portal. É recomendado que qualquer suspeita de um caso da doença seja reportada às unidades de saúde, às UPAs abertas, ao Hospital Nossa Senhora das Graças ou a um dos hospitais de campanha instalados no município.
Os principais sintomas da leptospirose são:
- Febre
- dor de cabeça
- fraqueza
- dores no corpo (em especial, na panturrilha)
- calafrios.
A doença pode apresentar letalidade de até 40% nos casos graves.
Para as famílias que forem liberadas a retornar para casa, é necessário cuidado. Recomenda-se o uso de equipamentos de proteção, como botas e luvas, para limpar a lama e a água acumuladas, de forma a limitar o contato com urina contaminada.
Além da leptospirose, os médicos também se preocupam com o caso de tétano e hepatite A. Para ambas, existem vacinas disponíveis, que podem precisar de reforço.
Dengue
Grandes inundações trazem o problema da água parada, em especial em regiões onde há maior demora para que o nível abaixe. Espécies como o mosquito Aedes aegypti podem se proliferar mais facilmente do que de costume, potencializando a emidemia de dengue que já atinge o Estado, e Canoas em especial.
O município já teve mais de 5 mil casos de dengue apenas em 2024. Um em cada 69 canoenses já tiveram a doença desde o dia 1º de janeiro.
Mesmo após a retirada das águas de bairros como o Mathias Velho, há o potencial para muitos lugares terem vários pequenos focos onde o mosquito pode procriar. Tudo depende das temperaturas em junho, quando há previsão de tempo seco, de acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).