Leandro Magalhães Correa, 20 anos. Foto: Bruno Lara/OT
Leandro Magalhães Correa, 20 anos. Foto: Bruno Lara/OT

Bruno Lara

O caminho é intenso até o Centro de Recuperação e Ressocialização de Dependentes Químicos Bom Samaritano, na estrada dos Ramires, em Sapucaia do Sul. O trecho compreende ladeiras, a falta de sinalização e uma estrada de terra batida traiçoeira. Mas o trajeto é ainda pior para aqueles que há anos convivem com as drogas.
Uma das piores drogas da contemporaneidade é, sem dúvida, o crack. A substância facilmente encontrada em todos os municípios leva cerca de 10 minutos para fazer efeito, gerando euforia e excitação em quem a consome. É o efeito da cocaína, de cinco a sete vezes mais potente por ser misturada com bicabornato de sódio. O efeito curto, de aproximadamente cinco minutos, leva a ser uma demanda recorrente. Leandro precisou de anos para se livrar.

Morador do Guajuviras
Morador do bairro Guajuviras, um dos mais perigosos da cidade, Leandro Magalhães Correa, 20 anos, trabalhador no ramo da construção civil, conheceu o crack em 2014, mas a sua história com os entorpecentes começou muito antes. “Eu conheci o crack ainda em 2014, onde eu morava, no Guajuviras. Trabalhava e estudava de noite, fazendo o (Ensino de Jovens e Adultos) EJA na escola Nancy Pancera. Comecei a não ir à aula, ficava na rua. Como trabalhava, comprava as coisas com o meu dinheiro. Então fui me aprofundando. Comecei usando cocaína e parei de usar depois de três anos. Comecei a usar maconha. Depois da maconha comecei com o crack. Cheguei a um estado crítico, onde tinha saído do convívio com a família e com as minhas filhas. Uma de quatro e outra de cinco anos. Letícia e Larissa”, explica arrumando a gravata. No momento, não tem contato com as meninas que moram com a mãe no bairro Estância Velha.

Leandro Magalhães Correa, 20 anos, venceram o crack. Foto: Bruno Lara/OT
Leandro Magalhães Correa, 20 anos, venceram o crack. Foto: Bruno Lara/OT

Perda da família
Para a vendedora Graziele Magalhães Correa, 18 anos, irmã do ex-viciado, a história se desenrola em função de uma família já abalada pelos vícios. “Foi um processo bem difícil. Como a gente já teve uma história bem difícil de vida, pai e mãe nada a se espelhar, ao decorrer do tempo, acabou gerando que nos perdemos. Já tive um irmão assassinado por conta das drogas. A nossa família, de unida, não era mais nada”, conta, lembrando que o irmão estava perdido dos outros três irmãos.
No dia 14 de novembro de 2015, mais um choque. A mãe havia falecido. “Foi muito mais difícil lidar com isso, muitas perdas. É muita coisa para aguentar, para leva nas costas. Talvez não o teríamos o encontrado”, conta Graziele que desde os sete anos de idade não convive com o pai, também usuário de tóxicos.

“Me pegaram no portão”
“Continuei me envolvendo com o Crack, que é a pedra de hoje em dia. Morei um pouco na casa do meu pai, mas por questões familiares entre ele e a mulher, saí e fui morar com um amigo que arrumei aqui em Sapucaia”, explica. O amigo pertencia a uma igreja Assembleia de Deus e o convenceu a ir para o retiro. “Ele então me trouxe para cá no dia seguinte, de manhã, eles me pegaram no portão, me aceitaram, me internaram e eu estou seguindo. Já estou há seis meses, quase sete, para vencer”, aponta.
Ele se refere ao Crer Bom Samaritano, Centro que atualmente atende 35 residentes que buscam uma mudança em suas vidas através da fé e da psicologia. O tratamento, gratuito, dura em torno de um ano e, segundo o diretor geral da instituição, Roberto Silva, 31 anos, sem o uso de medicação. “É um trabalho social, sem fins lucrativos. Trabalhamos com a ajuda da igreja (Universal) e da comunidade. A maioria vem das ruas. Hoje, cerca de 90% são moradores de rua”, explica.
O tratamento consiste em uma rotina de nove meses de intenso trabalho e mais três meses de ressocialização, tudo isso seguindo um norte com três pilares: Espiritualidade, psicologia e trabalho. “Estamos reeducando eles para voltarem a sociedade”, comenta o diretor. A primeira e mais dura fase, que dura os primeiros 15 a 30 dias, os internos passam em um espaço em grupo preparado para a desintoxicação.

Semáforo na entrada do retiro marca o início de uma nova fase. Foto: Bruno Lara/OT
Semáforo na entrada do retiro marca o início de uma nova fase. Foto: Bruno Lara/OT

Vida nada fácil
A vida na rua não é nada fácil e Leandro sentiu isso na pele. “A gente passa por bastantes dificuldades, bastantes lutas. Lá fora não era nada agradável, não era uma vida que precisávamos ter na questão de perdas, de falta de familiar, falta de afeto. Muitas vezes a falta de compromisso nos faz perder os valores. E aqui a gente encontra os valores. Aprendemos a ser honesto, a ter um caráter verdadeiro. Aprende a virar um ser humano, ter família, buscar conquistas, objetivos e permanecer. Ser forte e cumprir o tratamento. Mostrar que a gente pode mudar sim. Que as drogas não matam a pessoa, que as drogas não destroem a vida da pessoa se ela quiser mudar. Tem solução e a solução está em Jesus, está na nossa fé e nas pessoas que nos ajudam”, motiva.
A falta da família foi um fator decisivo. “Para mim era muito difícil encontrar minha família. Nem sabia onde minha irmã estava morando. Fiquei sabendo que poderiam ter vendido a nossa casa. Graças a Deus, aqui, gerou o encontro da minha família. Tudo indo para o caminho certo”, agradece.

Droga avassaladora
O relatório mensal de atividades do mês de junho de 2015 do Centro Pop, órgão ligado a Diretoria de Vigilância Socioassistencial e Gestão da informação da Secretaria Municipal de Desenvolvimento social de Canoas, o qual O Timoneiro teve acesso com exclusividade, mostrava um número alarmante. Das 68 (sendo apenas seis mulheres) pessoas atendidas no mês, 54 eram usuários de drogas ilícitas (como o crack) e 60 de drogas lícitas (como o álcool).
Segundo relatório, 38 destas pessoas foram para as ruas em função das drogas. Seguida dos desentendimentos familiares, que tirou 19 deles de casa, e o desemprego, que levou mais 11. De todos os internos, naquele mês, cinco voltaram para o mercado de trabalho e três para o vínculo familiar.

Um futuro
Um dos cinco canoenses internados no Crer Bom Samaritano, Leandro, que desacreditava em um futuro muito melhor do que o presente, passou a orar por uma carreira e uma família de sucesso. “No futuro eu quero estudar, ter uma boa profissão, ter uma família abençoada com meus irmãos comigo. Quero seguir uma vida boa, com a presença de Deus, uma vida religiosa e aprender a ter a honestidade que estou aprendendo aqui hoje e poder compartilhar com as outras pessoas. Assim como as pessoas que me estenderam a mão quando eu precisei, que eu possa estender a mão no futuro para as que precisarem também”, faz o último pedido.

Só chegar no portão
O ingresso não é difícil. “É só chegar no portão. Basta dizer que quer mudar de vida, que quer sair daquela situação. Isso é o que nos motiva”, lembra Roberto. Assim, ao longo dos sete anos de vida do retiro, mais de 1.500 pessoas já passaram pela estrutura. “As pessoas chegam aqui sem uma perspectiva de vida. Entram aqui sem nada. Nestes nove meses trabalhamos para reeducá-los e os entregamos. Temos empresas parceiras. Eles saem daqui prontos para trabalhar, uns em padarias, oficinas, empreiteiras”, conta. A mudança é radical. “Quando eles chegam aqui fazem uma entrevista. Depois de três meses, quando fazem a entrevista novamente, o pensamento é outro, querem vencer, estão motivados”, se orgulha.

Roberto Silva, diretor geral do Crer Bom Samaritano. Foto: Bruno Lara/OT
Roberto Silva, diretor geral do Crer Bom Samaritano. Foto: Bruno Lara/OT

Mas o trabalho não para por aí. Para Roberto, a família é um ponto importante na recuperação dos viciados, pois ela também fica doente. “A nossa missão não é somente o interno, é também a família. Nesta altura do campeonato a família também está sofrida, doente, passando por dificuldades. Então amparamos a família e o interno”, aponta.
Doações e parcerias são bem vindas. No domingo, 31, houve a inauguração da pedra fundamental que marca a construção do Alojamento e Centro de Eventos que receberá mais internos, tendo em vista que uma grande lista de espera aguarda sua oportunidade. Mais 100 jovens dependentes terão ali um lugar para repensar o futuro. “A gente fica triste por não poder dar o amparo. Por isso vimos a necessidade e buscamos parceiros para poder fazer essa obra. Muitos não querem ir embora. Seis dos que estão aqui não querem mais ir embora”, ostenta. No local, tudo o que é feito tem a participação dos internos, inclusive uma horta, útil nas refeições e no dia a dia.
O caminho de volta, no entanto, promete ser mais perigoso que o da chegada. Uma luta diária que Leandro e todos os outros internos, familiares, funcionários e curiosos não se esquecerão jamais.

Horta feita pelos internos é utilizada nas refeições e para auxiliar no trabalho dos internos. Foto: Bruno Lara/OT
Horta feita pelos internos é utilizada nas refeições e para auxiliar no trabalho dos internos. Foto: Bruno Lara/OT

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