O médico Generalista e Gastroenterologista Ednilson Decarlo Oliveira Lautenschlager faleceu aos 55 anos no último sábado, 20, em Canoas.
O médico teve atuação destacada no enfrentamento à pandemia de Covid-19 no município. Atualmente, era Chefe de Serviço de Clínica Médica e da Residência em Clínica Médica do Hospital Nossa Senhora das Graças (HNSG), instituição a qual se dedicou por mais de 30 anos.
Luto na cidade
“A Prefeitura de Canoas manifesta profundo pesar pelo falecimento de Ednilson Decarlo Oliveira Lautenschlager, aos 55 anos. O município decretou luto oficial de três dias como homenagem póstuma”, disse o comunicado postado no site da Prefeitura.

História
Ednilson nasceu no dia 3 de março de 1968, na cidade de Pelotas. O filho de Wilson Lautenschlager e Alzira Oliveira Lautenschlager se formou em Medicina em 1991 na cidade natal, a Universidade Federal de Pelotas. Fez residência de Medicina interna, residência em Gastroenterologia e conquistou o título de Especialista em Endoscopia Digestiva.
Em novembro de 1997, começou a trabalhar (onde ficaria até o último dia) no Hospital Nossa Senhora das Graças, o Gracinha, ganhando inúmeros admiradores e o carinho de toda uma cidade.
Adorado por todos
“Querido e amado por todos. Colegas, pacientes e familiares de pacientes”, contou a colega do HSNG Zulma Osório.
“Um preceptor de amor. Humanista e humanitário, contumaz em espargir generosidade, compaixão, suscitando aos que a ele acorriam o despertar de fé e esperança. Propiciava com empatia e elevada espiritualidade, cativar e fazer amigos pela confiança que externava. Sempre sereno e solícito, com civilidade e diligente – foi exemplar, magno! Excelente profissional, dotado de simplicidade, que é o mais alto degrau da sabedoria”, escreveu Getulio Rogerio Arbo Pavlak, Presidente do Conselho Deliberativo da ABC – Mantenedora do HNSG.

O Dr. Erico Lombardi escreveu uma carta e divulgou nas suas redes sociais, que reproduziremos na íntegra abaixo:
“Das pessoas como o Ednilson, costuma-se dizer em inglês que têm uma personalidade maior que a vida. Não sei se há uma tradução mais adequada. Não sei se há uma definição melhor para ele. O Ednilson fez parte da minha vida nos últimos 17 anos.
Alguns aqui tiveram o prazer de tê-lo em suas vidas por mais tempo, outros menos, mas acho que em todos teve impacto semelhante.
Ele era extremamente inteligente, sabia praticamente tudo de medicina que se precisa saber, era profundamente humano e cuidadoso com seus pacientes. Ele poderia trabalhar onde quisesse, Hospital Moinhos de Vento, Hospital de Clínicas, mas escolheu o Graças como a sua casa. Perdi a conta de quantos pacientes eu ouvi dizerem que não gostavam do hospital, mas que vinham porque o Ednilson só trabalhava aqui. Faz vários anos que ele falava em morar no interior, levar uma vida mais tranquila. Chegou a visitar hospitais e clínicas no interior onde haviam sido oferecidas oportunidades, mas ele nunca conseguiu largar essa paixão pelo Graças, e eu entendo, porque também não consigo.
Ele foi para mim como um irmão mais velho, especialmente no início da minha carreira profissional. Ele não era tão velho quanto meus professores, nem tão novo quanto meus colegas. A idade e ponto da carreira perfeitos para poder me dar conselhos sem parecer distante. É difícil expressar a gratidão que tenho pelo enorme apoio que ele me deu na minha formação profissional. Difícil imaginar como teria sido a minha vida sem o Ednilson. Difícil imaginar como teria sido Canoas nos últimos 25 anos sem o Ednilson. No início da nossa convivência, eu era muito magro e ele estava obeso. Nós brincávamos que eu não era metade do homem que ele era. Refletindo agora, eu acho que conheci pouquíssimas pessoas que chegaram a ser metade do homem que ele foi, e eu certamente ainda estou lutando para chegar lá.
São nos detalhes e nas pequenas histórias que a gente conhece as pessoas de verdade. Faz quase 10 anos que, conversando com uma paciente em comum que tínhamos, eu pedi que ela consultasse o Ednilson. Ela me falou o seguinte: “Sabe, doutor, eu adoro o Dr. Ednilson mas ele me assusta. Eu sei que ele me cuida muito bem e é extremamente atencioso, mas uma vez eu estava no hospital dormindo, não estava passando muito bem. Subitamente, à meia noite eu acordo com porta do quarto abrindo, a luz acendendo, o Dr. Ednilson está ali e fala quase gritando: teus exames estão ruins, troquei teu antibiótico. Antes que eu tivesse acordado completamente, ele já tinha saído”. Essa história é a que melhor sintetiza o que era o Ed, na minha opinião. Viu 50 pacientes durante o dia. À meia noite de um final de semana, lembrou-se de uma paciente que não estava tão bem, ficou preocupado, voltou ao hospital (sem receber um centavo a mais por isso), viu o exame pendente e prescreveu a medicação.
Como me faltam as palavras adequadas para homenagear com justiça o Ed, faço aqui uma tradução/adaptação de um poema famoso de W. H. Auden, que fala sobre amor romântico, e eu adapto para o amor fraternal que a maioria de nós sentia por ele.
Parem todos os relógios, cortem os telefones,
Evitem que os cachorros latam dando-lhes um osso suculento,
Silenciem os pianos e com um tambor abafado
Tragam o caixão, deixem que venham velá-lo.
Deixe que aviões circulem no alto gemendo,
Escrevendo nos céus a mensagem Ele está morto,
Coloque gravatas de papel no pescoço das pombas da praça,
Deixe os guardas de trânsito usarem luvas de algodão pretas.
Ele era o norte, o sul, o leste e o oeste,
A semana de trabalho e o descanso de domingo,
O meia dia, a meia noite, a conversa, a música;
Eu achei que o amor faria durar para sempre: eu estava errado.
As estrelas não são desejadas agora: apaguem todas;
Empacotem a lua e desmanchem o sol;
Drenem o oceano e juntem a madeira.
Porque hoje nada pode acabar bem.
Faz poucas semanas eu perdi outro amigo médico muito querido, e direi algo parecido com o que falei naquela ocasião. Apesar do Ednilson ter nos deixado cedo demais, ele fez na sua vida mais do que a maioria faria em 100 anos. Tanto no número de pessoas que ele salvou quanto no número de pessoas que ele amou ou por quem se fez amado. Uma vida como a do Ed não pode ser lamentada. Nós temos que nos juntar aqui para comemorar a vida de um grande homem, um dos maiores que eu tive o prazer de conviver e amar. Ficam imensas dor e saudade, mas dizem que esse é o preço por ter amado. Eu pago esse preço com gosto por ter tido o privilégio de conviver contigo, meu amigo. Um beijo, Ed, onde quer que estejas”.
Ednilson deixa a esposa Denise e os filhos Marco Antônio e Sofia, além de milhares de admiradores e uma cidade em luto.
Obrigada por tudo!