Na última semana estive em São Paulo. Logo na chegada, me deparei com o reflexo dos problemas que assolam o sistema público de Educação naquele Estado. Embarquei em um ônibus executivo no aeroporto de Guarulhos, com esperanças de chegar à avenida Paulista, mas não tive sucesso, tive que desembarcar no largo do Arouche (sim, aquele lugar que os personagens do Sai de Baixo tinham pavor). Não tinha como seguir viagem, pois, segundo o motorista, uma manifestação gigantesca bloqueava a Paulista. Os estudantes não aceitavam a decisão do governador Geraldo Alckmin de fechar dezenas de escolas. Ocupavam as instituições de Ensino e bloqueavam ruas, sempre reprimidos com violência pelo governo.
Violência… voltei para o Rio Grande do Sul pensando que aqui éramos mais felizes por não termos uma relação tão institucionalizada entre violência e escolas, apesar de preocupantes episódios isolados. Nem entro no mérito da resolução do problema paulista, pois a notícia com que me deparei em Canoas faz com que me foque mais no problema que está na minha casa do que na casa dos outros.
Se em São Paulo me apavorei com a polícia agredindo estudantes adolescentes, o que pensar de professores agredindo alunos em uma idade em que mal sabem falar? A notícia veiculada na capa de nosso jornal na última sexta-feira, 11, e que pode ser lida aqui, revela uma atrocidade que estava sendo cometida contra nossas crianças em escolas públicas. Sim, públicas, aquelas que todos nós pagamos e que o governo nos faz pensar que são gratuitas.
Como eu vou dormir tranquilo e pensar que na creche municipal mais próxima, e agora faço questão de chamar de creche e não de Escola Municipal de Educação Infantil, como insiste a Prefeitura, várias crianças podem ser amarradas nas próximas horas?
Quem clicou no link acima e leu o que aconteceu percebeu que não foi um caso isolado, não aconteceu só uma vez, e a Prefeitura sequer negou. Não é uma especulação, é um fato, crianças foram agredidas em creches públicas. Nem é preciso forçar o pensamento para se chegar à óbvia conclusão: estamos pagando para torturem nossas crianças.
E antes que você pense “O problema é a estabilidade dos funcionários públicos, eles cometem atrocidades porque sabem que não vão perder o emprego!”, eu insisto que leia com atenção a nossa reportagem. Não se tratam de funcionários públicos e sim de terceirizados, contratados por uma associação para a qual a Prefeitura repassou a gestão de algumas escolas. Portanto, é fácil pensar que a administração municipal pode afastar esta associação e assumir a gestão ou mesmo repassar para outra instituição mais competentes. Claro, é fácil pensar, mas foi isso que fez a Prefeitura? Não, as mesmas pessoas continuam à frente da gestão das escolas. As mesmas pessoas que escolheram pelo menos uma professora capaz de amarrar alunos, que selecionaram atendentes de creche através de anúncios em paradas de ônibus, continuam cuidando das nossas crianças.
A culpa realmente é apenas da professora que praticou a violência? Não seria do critério de seleção adotado para contratá-la? Não seria de quem teve a ideia de repassar a gestão de escolas para instituições nada confiáveis? Ou ainda, não seria, de fato, de quem aprovou a ideia e deu o canetaço que permitiu o repasse da gestão? É difícil eleger um só culpado. Mas o fato é que se deixarmos que isso continue acontecendo, se não pressionarmos pela mudança urgente do sistema de gestão destas creches, todos nós seremos tão culpados quanto os demais. Omissão também é uma falta muito grave, não podemos ser omissos.
