Por Guilherme Lannig* 

PROGRAMA “CANOAS JURO ZERO”: O QUE OS  CANOENSES PRECISAM ENTENDER 

Foi aprovado na Câmara Municipal de Canoas o Projeto de Lei nº 25, de iniciativa do  Executivo Municipal que cria o programa chamado “Canoas Juro Zero”. A proposta consiste  em subsídio financeiro por parte da Prefeitura de Canoas para cobrir os juros cobrados pelas  instituições que aderirem ao programa e oferecerem créditos para microempreendedores  individuais e microempresas. Pela proposta aprovada, a Prefeitura está autorizada a abrir  crédito em seu orçamento no valor de R$5.220.000,00 (cinco milhões e duzentos e vinte mil  reais). O programa é uma demanda dos setores atingidos pelas restrições impostas pela  pandemia do COVID-19. Não tenho nenhum motivo para duvidar sobre a honestidade desse  pedido e, também, nenhuma razão para questionar a excelente intenção do Prefeito Jairo  Jorge com essa proposição. Entretanto, gostaria de chamar atenção para alguns aspectos que a  população canoense precisa ter em mente com essa ação. 

Os microempreendedores e microempresários canoenses tiveram seus negócios  afetados pela pandemia – isso não há nenhuma dúvida. Assim já seria pela própria natureza de  uma pandemia muito contagiosa e, em alguns casos, fatal. A atitude da população frente a  essa situação é naturalmente a cautela em se expor aos riscos. Evidentemente a receita dos  negócios diminuiria pela simples redução na circulação das pessoas. Receitas essas que  possibilitam as próprias subsistências, oferecer um conforto maior para suas famílias, salários  para empregados e oferta de produtos e serviços para a população em geral. Apenas o fator  pandemia já seria suficiente para impactos econômicos negativos para essas pessoas pela  redução da demanda. Mas tivemos outro fator que terminou de vez com qualquer  possibilidade de receitas para essas famílias: a interferência estatal. 

O Governo do Estado proibiu diversos setores de sequer tentar abrir suas lojas, prestar  seus serviços, tomar os devidos cuidados sanitários e procurar alternativas para lidar com a já  esperada queda em suas receitas. Por meio de Decreto impediu que muitas pessoas pudessem  trabalhar, passando por cima do art. 5º, inciso XIII da Constituição Federal que diz “é livre o  exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão”. Através de seu “modelo de  distanciamento controlado” determinou, de cima para baixo, quais atividades são 

consideradas essenciais e quais não são, quais produtos podem ser consumidos e quais não  podem. Não satisfeito, instituiu uma “cogestão” em que os prefeitos municipais não poderiam  diminuir as restrições impostas; apenas aumentar ainda mais as proibições. Felizmente, tanto o ex-prefeito Luiz Carlos Busato quanto o prefeito Jairo Jorge não restringiram ainda mais as  medidas do Governo do Estado. Mas eles ficaram impossibilitados de permitir que diversas  pessoas pudessem trabalhar seguindo rigorosos protocolos sanitários que, diga-se, muitos se  prepararam adequadamente em seus estabelecimentos. Os microempreendedores,  microempresários e diversas pessoas do setor de eventos em especial sofreram duplamente  com essa situação que já dura mais de um ano. 

E então chegamos no programa “Canoas Juro Zero” proposto pelo Prefeito Jairo Jorge. Aplaudido por diversos vereadores na Câmara Municipal como uma espécie de  atestado de empatia pela situação das famílias, demonstração de preocupação com a  manutenção dos empregos, pela dignidade das pessoas – o falatório foi grande e rasgados  elogios proferidos. Novamente, não questiono em nenhum momento a boa intenção do  Prefeito ao apresentar o projeto, bem como entendo a demanda daqueles que o saúdam.  Gostaria que os canoenses compreendessem por que os microempreendedores e  microempresários necessitam desse aporte da Prefeitura para subsidiar os juros: ora,  justamente porque foram impossibilitados de trabalhar pelo Estado! Ou seja, um ente estatal  primeiro os proibiu de exercerem suas atividades para depois outro ente aparecer com a  solução. E agora se abre a possibilidade para a Prefeitura Municipal capitalizar junto a  sociedade toda a sua virtude, benevolência e empatia junto ao público. 

Precisamos estar atentos para essas ações. Lembro que os recursos que serão  utilizados pela Prefeitura para subsidiar esse programa sairá do único local que financia  qualquer ação governamental: do bolso dos pagadores de impostos. E tudo isso só foi  necessário por conta de uma interferência do governo nas atividades econômicas que hoje  suplicam pelo apelo do governo. Nas palavras de Harry Browne: “o governo é muito bom em  quebrar suas pernas para depois lhe dar uma muleta e dizer: ‘veja, se não fosse pelo governo  você não seria capaz de andar’”. Não tiro a razão dos que comemoram esse programa. Mas  tenham em mente que o ambiente que trouxe essa necessidade foi causado pelo governo; e é  o governo que está usando o seu dinheiro para ganhar a sua simpatia.

*Psicólogo, mestrando em psicologia cognitiva experimental, canoense 

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