Omar Ferri

O meu amigo Ney Ortiz Borges

Junto com amigos eu passeava pela Praça da Alfândega em 1955. Era ano de eleição para prefeito e vereadores. Um deles pediu para eu votar em Ney Ortiz Borges. Como eu não tinha candidato votei nele. Foi minha estreia como eleitor. Na eleição seguinte ele já era meu amigo. Na condição de presidente da Ala Moça do PTB de Encantado, falei com o Prefeito, Ernesto Lavratti Netto e terminamos apoiando o Ney, que se elegeu deputado federal, recebendo ao redor de 1.500 votos. Em 1963 fui nomeado Procurador da Fundação Brasil Central, ocasião em que o Ney me convidou para morar com ele, pois sua primeira mulher, Dona Soloi permanecia em Porto Alegre cuidando das filhas que estavam estudando. Ney assumiu e já no início ele foi conduzido à vice-liderança do PTB na Câmara dos Deputados. À noite nos reuníamos para trocarmos correspondência com os diretórios municipais do partido do Rio Grande do Sul. Examinávamos leis em tramitação na Câmara e passamos a planejar encontros de Prefeito com o presidente João Goulart, amigo pessoal do Ney. Certa ocasião ele reuniu um grupo de prefeitos que foram recebidos por Jango no Palácio do Planalto ocasião em que aproveitaram para fazer reivindicações em favor de seus municípios. Lembro-me dos nomes de alguns, como por exemplo: Romildo Bolzan de Osório, Menet de Viamão, e Dalpian de um município do Vale do Taquari, mais os prefeitos de Montenegro de Bom Retiro do Sul. Pelo seu trabalho e pela sua dedicação, tudo estava a indicar que teria um futuro brilhante como político. Porém, o golpe de 1964 arrebatou-lhe o destino. Foi cassado pelo Ato Institucional nº 1, no dia 10 de abril de 1964, juntamente com os Grandes nomes do PTB: Almino Afonso (PTB-AM), Lima Cavalcanti (PTB-Pernambuco), Benedito Cerqueira (PTB-RJ), Elói Dutra (PTB-Guanabara), Leonel Brizola (PTB-RS), Miguel Arraes (PTB-Pernambuco, Seixas Dória, ex-governador da UDN – Sergipe, e muitos outros. Dada a situação de alta excepcionalidade política, e presumindo que seria preso, Ney asilou-se na Embaixada da Iugoslávia. No dia seguinte, às 7 horas ele ligou para mim e disse: Omar: eu preciso de roupas. Pega a mala grande e põe dentro dela, sapatos, chinelos, meias cuecas, calças camisas, roupa de cama, toalhas, pasta de dentes, sabonetes, tudo o que tu pode caber e me traz. Coloquei tudo na mala e fui para a rua de comércio existentes entre as Super Quadras, no caso 305/306 –Sul, onde tomei um taxi e me dirigi ao prédio da Embaixada. O Ney tinha me advertido que policiais munidos de fuzis e metralhadoras estavam postados defronte a entrada. Pedi para o motorista seguir por uma estrada estreita de terra e cheguei na parte lateral do Embaixada, que estava cercada por arame quadriculado, mais ou menos numa altura de dois metros. Saltei do carro, atirei a mal por cima da cerca, botei os pés na parte quadriculada do arame e pulei para ao pátio da Embaixada, no exato momento em que os policiais perplexos se levantavam dos bancos com as armas nas mãos. Mas, eu estava salvo. O problema era sair. Acontece que logo depois chegaram os deputados Zaire Nunes e Aldo Fagundes para fazer uma visita aos parlamentares exilados. Saí com eles numa daquelas caminhonetonas da Câmara. Os policiais se levantaram de novo e o Zaire disse para o motorista: “toca em frente”. Resolvido o assunto.

Agora no dia 24 de fevereiro Ney nos deixou. Ele foi um dos grandes trabalhistas histórico. Amigo de Jango e Brizola, se destacou sempre por sua conduta retilínea e incansável, em sua missão de bem servir o partido e os eleitores. Ney Partiu, mas ficará para sempre em nossa memória, como um dos grandes vultos políticos do Rio Grande do Sul. Homem correto, lutador, amigo de seus amigos, fiel servidor das causas populares, e das Reformas de Base. Com posições claras e definidas, tinha a lealdade como princípio e integridade como apanágio de conduta pessoal, foi um dos mais insignes representantes do Velho e Bom Trabalhismo. Ficará sempre em nossas lembranças. Adeus Ney. Tua trajetória será para nós motivo de orgulho e tua amizade um sentimento que haveremos de guardar pelo resto de nossos dias.

 

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