Olegar Lopes – Agenda Tradicionalista
Cena pampeana… Devaneios…
Gosto de ficar sentado sob a ramada duma figueira numa tarde de outono, como fazia o velho Blau Nunes, homem de vista aguda e ouvido fino, tomando chimarrão com os cuscos deitados, um de cada lado, enquanto vejo o sol descambar no horizonte, lançando seus últimos raios sobre as águas da lagoa. Dá gosto de ouvir o canto da seriema, anunciando a chegada do inverno, e o berro do touro brasino convidando a tropa para a pousada no capão. Ver os narcejos caindo do infinito em queda livre, com seus silvos inconfundíveis, anunciando o fim do dia.
Quando o sol desaparece e a boca da noite vem chegando, é hora de se recolher para o interior do galpão, sentar à beira do fogo de chão e ficar observando as labaredas crepitantes transformarem a lenha em braseiro. Ouvir o canto dos quero-queros anunciando que alguém se aproxima e o cusco latindo no oitão do galpão para o guacho que procura abrigo para passar a noite. Abrir a porta do galpão, ver a lua cheia se espelhando numa poça d’água e as rãs coaxando no banhado.
Levantar enquanto a estrela boieira faz ronda no céu antes de desaparecer com os primeiros raios de sol, ouvir o canto do galo carijó e da passarada no arvoredo, matear ao pé do fogo. Ver o gado levantando na beira do capão, se espreguiçando antes do primeiro pasto do dia.
Gosto quando chega hora de ordenhar a vaca bordada, para tomar um café camargo ainda na mangueira. Melhor que isso! “É matar a sede tomando a água pura da cacimba na concha da mão”.